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O Cheiro dos Livros

Depois de ser uma aventura radiofónica resume-se agora a uma forma de manter a minha biblioteca pessoal organizada...

O Cheiro dos Livros

Depois de ser uma aventura radiofónica resume-se agora a uma forma de manter a minha biblioteca pessoal organizada...

Sobre um vulcão de José Pereira de Lima

Milheiras, 18.09.14

 

Opinião:

 

Terminei de ler esta obra a 3 de Julho de 2014.

É uma obra fascinante, daquelas que temos em casa uma vida inteira e um dia decidimos arriscar e ainda bem que o fiz.

Não sei como foi parar lá a casa nem de quem era. Na Internet também não muitas informações sobre o autor.  Mas para mim este livro foi escrito por uma pessoa com uma genialidade incrível. E fez-me descobrir quem sou.

Datada de 1929 e editada pelo autor, ficamos a saber pelo prefácio que é a primeira obra de José Pereira de Lima.

No entanto o enredo tem lugar antes de 1910, mas se retirarmos a monarquia de campo, podia ser um enredo da actualidade.

E como é possível que um livro com quase 100 anos se mantenha tão actual. Digo eu: muito mal vai o nosso país, para não ter havido uma evolução...

Um livro de pequenas dimensões e de 201 páginas. Dos tais que eu gosto que são fáceis de ler mas que nos dão muito em que pensar.

 

Excertos:

 

(...)

 

" Não me prendo com dogmatismos, dizia ela, apesar de que aceito com a melhor vontade a moral e os belos conceitos espendidos nela. Quero crêr e compreender livre de peias e não admito nem regeito o que me dizem por me garantirem: - Isto é bom ou aquilo é mau. Tenho a minha convicção entrará no meu espirito."

 

(...)

 

" - Ah! É para lamentar!...Esquecia-me de que a menina não gosta destes graves assuntos...É uma revolucionária....Foi o que no colégio lhe souberam ensinar? Se eu tenho adivinhado! Nunca teria permitido que tivesse saído para longe de mim. Mas, gabaram-me tanto a educação cuidada que lá se recebia, que eu consenti para ma estragarem com ideias exquisitas.

- Exquisitas, não minha querida mãe, diga antes ideias novas, livres da rotina. Não me estragaram como julga, mas ensinaram-me a pensar pela minha cabeça e não pela dos outros. É o que é."

 

(...)

 

"a Igreja é o refúgio de todos os desgraçados, que não deixaram de ser socorridos e aconselhados por ela nos dolorosos transes da vida. O mesmo não sucede aos que aplaudem as ideias subversivas. O mínimo que lhes pode acontecer é duvidarem de tudo e de todos, até se toranrem materialistas, o que é mil vezes mais perigoso do que a morte: é o suicídio do espírito. perderam a consolação da fé, e crendo unicamente no nada, acabam por se matar, julgando põr termo a tudi, mas não dão mais do que o acesso aos horriveis sofrimentos que os esperam no inferno."

 

(...)

 

" - Direi que não é com esta rivalidade de crenças para crenças que se conseguirá melhorar o mundo; o ódio não se paga com ódio. (...) A minha filosofia que tanto condenam, só deseja harmonisar as diferentes crenças perante a minha consciência, porque, julgando-as todas sinceras, vejo que o seu papel é preponderante, beneficiando a humanidade, melhorando-a, educando-a e servindo de freio a ruins paixões.

 Já não estamos na Idade Média, mas im no sécuo XX, por isso temos de nos adaptar ao novo meio. devemos abandonar a rotina de tantos séculos para entrarmos plenamente na luz da alvorada que raia para a nova geração, estudando tudo, pondo de parte dogmas e mistérios, que o cérebro já não aceita sem protesto, e que é dever de todo aquele que pensa explicar ao vulgo que ainda não percebe."

 

(...)

 

" a filosofia da actualidade, aquela que sigo reconhece Deus, não um ser antromorfo, mas alguma cousa mais sublime e grande, alguma cousa que o olhar do homem não apercebe, que a sua mente não descortina, mas de que vê efeitos na inteligência, na influência, na força incalculável, na flôr que desabrocha, no arroio que sussura, na catarata que se despenha, pelas altas fráguas, num estrondear terrível, no raio que fulgura, no trovão que ribomba, na luz que nos deslumbra e no cérebro que pensa. É em tudo isto que eu vejo a acção de Deus, a força da providência, o poder da Natureza, nomes diferentes, com que os homens, de todas as épocas, têem procurado explicar tudo o que não entendem, tentando, em vão, definir com qualquer palavra o Incognoscivel, medir o Infinito de tudo o que nos rodeia."

 

(...)

 

" Vai raiar um novo sol de Liberdade espancando para bem longe a nuvens sombrias que nos asfixiam. As prerogativas doas grandes senhores cairão por terra como ídolos de barro; a igualdade será um facto; acabar-se-hão as distinções de classes, o povo, êsse bom povo trabalhador e obscuro, terá horas de paz e de felicidade, poderá, como os outros, ascender aos mais altos cargos, desde que tenha inteligência e seja honrado. Ha tantos talentos desconhecidos e ignorados nêsse pobre e humilde povo! É ver como qualquer ideia nobre e elevada lhes empresta uma eloquencia arrebatadora e os faz levar após si centenares de pessoas. Como é lindo o nosso sonho!"